VIVÊNCIAS ÍNDIAS, MUNDOS MESTIÇOS: RELAÇÕES INTERÉTNICAS NA FREGUESIA DA GLORIOSA SENHORA SANTA ANA DO SERIDÓ ENTRE O FINAL DO SÉCULO XVIII E INÍCIO DO SÉCULO XIX

Monografia de Graduação em História, defendida em 2002 no Campus de Caicó,  Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação do Prof. Muirakytan Kennedy de Macêdo.

 

Resumo

A temática desse estudo é a Questão Indígena no Seridó norte-rio-grandense. Tradicionalmente, a historiografia potiguar escrevera que as populações indígenas do Rio Grande do Norte haviam sido riscadas do mapa após as Guerras dos Bárbaros. Historiadores eruditos, que direcionaram seus enfoques para questões históricas regionais, evidenciaram a presença de índios nos assentos da Freguesia de Santa Ana entre os séculos XVIII e XIX (DANTAS, 1979; COSTA, 1999). Essas evidências empíricas nos serviram de pista para a pesquisa que empreendemos. A indexação dos registros de batismos, casamentos e óbitos da Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó, dentro do limite cronológico que vai de 1788 a 1857, nos permitiu encontrar populações indígenas junto aos demais grupos étnicos da região participando de rituais religiosos. Embora envoltos pelo mundo colonial, a pesquisa evidenciou alguns desvios das tradições cristãs entre os índios, como o sepultamento fora dos templos, o não recebimento de sacramentos e as uniões informais sem que fosse precisa a anuência da Igreja. A conclusão mais patente a que chegamos é a da presença indígena inconteste no Sertão do Seridó entre, pelo menos, a última década do século XVIII e as primeiras do século XIX, resultado que se contrapõe à idéia veiculada pelos estudos clássicos da historiografia norte-rio-grandense. A lógica que percebemos no Sertão do Seridó dos séculos XVIII e XIX é a da mestiçagem (GRUZINSKI, 2001a). Mundos e horizontes culturais se misturaram a partir de suas especificidades, suas representações e seus corpos: o dos brancos, o dos negros, o dos pardos e o dos índios. Esferas que se interseccionavam através de mestiçagens biológicas, quebrando as barreiras étnicas e sobrevivendo da mistura. A mescla de práticas cotidianas, de hábitos e de costumes provocaria mestiçagens culturais cujos resultados são visíveis até hoje no estrato identitário dos habitantes da região do Seridó. Se a sobrevivência biológica dos índios no Seridó – que só foi possível porque os mesmos elaboraram estratégias de resistência ao esquema dominatório do mundo ocidental – é um dos epílogos desse trabalho, o outro é a sobrevivência cultural dos índios, que, mesmo adormecidos ou embaralhados no restante da população, estão presentes nos pequenos hábitos e gestos do cotidiano. Conseguiram resistir silenciosamente, já que herdamos alguns de seus nomes na toponímia regional, em alguns de nossos paladares e acessórios domésticos de palha e de barro. Resistência esta que se expressaria através da circularidade cultural (C.f. GINZBURG, 1987) entre as culturas branca e indígena. A opressão colonial não suprimiu totalmente a ânsia de viver e tampouco os traços culturais dos índios. Esse estudo não conseguiu responder a todos os questionamentos. Contudo, as conclusões a que chegamos constituem um pontapé inicial na revisão da História Indígena do Rio Grande do Norte, por tantos anos encoberta pela máscara do etnocentrismo e da rejeição ao passado nativo. Num futuro próximo, se as pesquisas avançarem progressivamente, é possível que falemos de comunidades indígenas no Rio Grande do Norte atual, em mundos mestiços onde a retomada da identidade étnica só será possível pelo processo da etnogênese.

 

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